O Playbook
Como construir software com agentes de IA — e manter o controle.
Este é o manual operacional do método H1VE. O manifesto diz o que valorizamos; os princípios dizem como agimos; este playbook diz exatamente como fazer o trabalho — papel por papel, gate por gate.
- Versão
- 1.0
- Público
- Quem lidera ou entra num time assistido por IA.
00
Introdução
A IA tornou gerar código quase gratuito. O custo não sumiu — ele se moveu. O código agora chega mais rápido do que qualquer time consegue ler, revisar e confiar nele, e é nessa lacuna que o risco se acumula.
O H1VE fecha a lacuna colocando o julgamento humano nos pontos que importam. Humanos e Agentes de IA · 1 Time — os agentes produzem, os humanos decidem, e toda decisão deixa um rastro.
Quando usar o H1VE
- Vários desenvolvedores trabalham em paralelo, cada um com um agente de IA
- Um bug silencioso em produção é caro
- Alguém precisa responder “quem decidiu isso, e por quê?”
- O time está escalando e a coordenação improvisada está quebrando
Quando não usar
- Um protótipo descartável de uma pessoa que ninguém vai manter
- Um script pontual sem necessidade de review
- Um time que não usa agentes de IA
A ideia central
A IA propõe; o humano decide. Todo gate deste playbook é um lugar onde essa decisão fica explícita e sob a responsabilidade de uma pessoa.
01
Os papéis
O H1VE define cinco papéis humanos que a IA assiste mas nunca ocupa. Num time pequeno uma pessoa pode acumular vários chapéus — mas as responsabilidades nunca se fundem. Um revisor nunca valida sozinho o próprio trabalho.
Dono do porquê
Define visão, escopo e prioridades. Cria e atribui features, aprova specs e acompanha a saúde do sistema.
- Pode
- Aprovar specs, definir o appetite, criar features, ver tudo.
- Não pode
- Fazer merge na main, ou assinar como QA/Data na própria feature.
Dono do como
Dono da fundação técnica e do merge final. Revisa o quadro completo antes de o código chegar à main.
- Pode
- Aprovar specs e DONEs, revisar e fazer merge na main — exclusivamente.
- Não pode
- Pular os gates ou fazer merge sem CI verde e os dois sign-offs.
Constrói com o agente
Transforma uma spec aprovada em código com a IA, só dentro do escopo, e move o trabalho para PR com uma AI declaration honesta.
- Pode
- Construir suas features, mover dev → PR, registrar blockers.
- Não pode
- Codar sem uma spec aprovada, ou fazer merge do próprio trabalho.
Valida que funciona
Confere de forma independente que a feature faz o que a spec diz. Uma metade do gate duplo.
- Pode
- Assinar (ou rejeitar) features em qa_data no critério funcional.
- Não pode
- Validar uma feature que ele mesmo construiu.
Valida a integridade
Confere de forma independente a solidez do schema e a integridade dos dados. A outra metade do gate duplo.
- Pode
- Assinar (ou rejeitar) features em qa_data no critério de dados.
- Não pode
- Validar uma feature que ele mesmo construiu.
Humanos e agentes
O agente rascunha, gera e propõe em todos os papéis. Mas a assinatura — a aprovação, o sign-off, o merge — é sempre humana.
02
O ciclo de trabalho
O trabalho flui por uma sequência definida. Nada pula etapa, e o quadro mostra onde tudo está em tempo real. O ciclo tem duas partes: uma fundação única e, depois, um loop de feature que se repete.
A fundação (uma vez, no início)
Antes da primeira linha de código, o projeto precisa existir no papel. O founder e o arquiteto, assistidos pela IA, produzem quatro documentos: visão & escopo, especificação funcional, especificação técnica e o roadmap. Eles são o bolo; toda spec seguinte é uma fatia.
Por que isso importa
Pular a fundação é a falha mais comum. O time coda rápido mas sem um norte comum — a IA inventa decisões, dois devs se contradizem. A fundação custa dias e economiza semanas.
O loop de feature (repete por fatia)
Cada feature passa por nove estágios, e pode ser estacionada como bloqueada a partir de qualquer um deles.
- Backlog
- Spec
- Dev + IA
- Pull Request
- CI
- QA + Data
- Arquiteto
- Main
- Backlog → Spec — Uma feature nasce, depois é definida. Nenhum código é escrito até um humano aprovar a spec.
- Spec → Dev + IA — O dev constrói com o agente, estritamente dentro do escopo aprovado.
- Dev + IA → Pull Request — O trabalho é submetido com uma AI declaration honesta do que o agente gerou.
- Pull Request → CI — A máquina confere a mecânica — tipos, lint, testes.
- CI → QA + Data — Dois humanos independentes validam dois tipos de risco; ambos precisam assinar.
- QA + Data → Arquiteto — Com os dois sign-offs, a feature vai para o gate humano final.
- Arquiteto → Main — O arquiteto revisa o quadro completo e faz o merge — o único que pode.
- Qualquer estágio → bloqueada — Uma feature pode ser estacionada como bloqueada a partir de qualquer estágio, com o motivo registrado, sem quebrar o fluxo.
Uma nota sobre ownership
Uma feature pode ficar no backlog sem dono, mas não entra em desenvolvimento sem um. Atribuir um dono é pré-condição para o trabalho — controle por design.
03
Os artefatos
O H1VE roda sobre um pequeno conjunto de documentos vivos. Cada um tem uma função, um momento e um dono.
Os documentos de fundação
- Visão & Escopo
- Por que o produto existe, para quem e seus limites. Liderado pelo founder.
- Especificação Funcional
- O que o produto faz, na visão do usuário. Founder + arquiteto.
- Especificação Técnica
- Como é construído: stack, modelo de dados, APIs, decisões. Liderado pelo arquiteto.
- Roadmap
- O escopo fatiado em fases. Cada item vira uma spec. Um documento vivo.
Os documentos por feature
- SPEC-NNN
- Criada e aprovada antes de qualquer código. Define escopo, arquivos tocados, critérios de aceite, riscos.
- DONE-NNN
- Criado ao final, antes do PR. O que mudou, como testar, a AI declaration.
O documento de memória
- CLAUDE.md
- A memória viva do projeto: stack, regras inegociáveis, arquivos críticos, estado atual. Lido antes de cada sessão, atualizado depois.
A AI declaration
Todo PR registra quais arquivos a IA gerou e quanto cada um foi revisado. Não é burocracia — diz ao revisor onde focar e torna o sistema inteiro auditável.
04
Os gates
Os gates são onde o julgamento humano entra e onde a qualidade é imposta, não apenas esperada. São três, em sequência.
Gate 1
CI — automatizado
A máquina confere a máquina: checagem de tipos, lint, a suíte de testes. Objetivo e rápido. Uma falha devolve a feature para o dev. Necessário, mas não suficiente — pega o que está mecanicamente errado, não o que está errado no julgamento.
Gate 2
QA e Data — o gate duplo
A assinatura do H1VE. Dois humanos independentes, validando dois tipos de risco, nenhum deles quem escreveu o código. A feature só avança quando ambos assinam — então move para o arquiteto automaticamente.
- QA pergunta: faz o que a spec diz?
- Data pergunta: o schema é sólido?
Por que dois gates, não um
A IA falha de um jeito na lógica e de outro nos dados. O código pode estar funcionalmente correto e ainda assim corromper o schema em silêncio. Um revisor perde um dos dois; dois gates independentes pegam os dois.
Gate 3
O arquiteto — o merge
O gate humano final. O arquiteto revisa o quadro completo — CI verde, os dois sign-offs, o DONE escrito — e faz o merge na main. Essa autoridade é exclusiva. A IA nunca faz merge.
05
As métricas
O H1VE mede a saúde do sistema, não a ocupação das pessoas.
- Taxa de aprovação do CI
- Fração das execuções de CI que passam. Abaixo de ~80% sinaliza problema sistêmico — pare de adicionar features até saber por quê.
- Tempo de ciclo
- Quanto uma feature leva da spec à main. Subindo, há um gargalo — muitas vezes a fila do arquiteto.
- Saúde dos gates
- Com que frequência features são rejeitadas no QA ou no Data, e por quê. Um padrão aponta specs fracas ou erros da IA passando.
- Idade dos blockers
- Há quanto tempo os blockers ficam abertos. Mais que alguns dias pede intervenção direta.
- Fila do arquiteto
- Features esperando o gate final. Uma fila crescente significa que o gargalo é o merge.
Meça o sistema
Elas descrevem o fluxo, não as pessoas. Velocidade que esconde um gate quebrado é pior que lentidão que mantém a qualidade.
06
Anti-padrões
Saber o que evitar é tão valioso quanto saber o que fazer. Estes são os modos de falha que o H1VE existe para prevenir.
Anti-padrão
Codar sem uma spec
“É uma mudança pequena, eu faço rapidinho.” É assim que as features incham e o review perde a âncora: mudanças pequenas sem escopo.
Faça em vez disso: Sem código sem uma spec aprovada — por menor que seja a fatia.
Anti-padrão
Deixar a IA fazer merge
O agente é rápido e confiante, então é tentador deixá-lo fechar o loop de ponta a ponta.
Faça em vez disso: O merge é exclusivamente humano. A IA propõe; o arquiteto faz o merge.
Anti-padrão
Pular a fundação
Ir direto para as features parece produtivo, mas deixa o time sem um norte comum.
Faça em vez disso: Escreva os quatro documentos de fundação primeiro. A fundação é feita uma vez.
Anti-padrão
Um revisor para tudo
Uma única pessoa aprovando spec, código e dados colapsa a independência de que os gates dependem.
Faça em vez disso: Mantenha QA e Data independentes — e nunca quem fez o trabalho.
Anti-padrão
Confiar numa AI declaration em branco
Uma declaration vazia ou vaga esconde onde o risco realmente está.
Faça em vez disso: Exija uma AI declaration honesta, por arquivo, em todo PR.
Anti-padrão
Velocidade como única métrica
Otimizar só por velocidade recompensa pular gates e acumula dívida silenciosa.
Faça em vez disso: Meça a saúde do sistema — taxa de aprovação, saúde dos gates, idade dos blockers — não só a vazão.
07
Glossário
O vocabulário comum do H1VE. Uma língua comum é o que transforma uma prática em profissão.
- Gate
- Um checkpoint onde o trabalho precisa ser validado antes de avançar. O H1VE tem três: CI, o gate duplo QA+Data, e o merge do arquiteto.
- Gate duplo
- O mecanismo que define o método: QA e Data validando de forma independente, ambos obrigatórios para avançar.
- Spec (SPEC-NNN)
- A definição aprovada de uma unidade de trabalho, escrita e aprovada antes de qualquer código.
- Done (DONE-NNN)
- O registro de fechamento de uma feature: o que mudou, como testar, o que a IA gerou.
- AI declaration
- O registro, por PR, de quais arquivos foram gerados pela IA e quanto cada um foi revisado.
- Appetite
- O tempo que um time aceita gastar numa feature. O escopo se ajusta ao appetite, não o contrário.
- Swim lane
- O quadro visual de nove estágios mostrando onde cada feature está em tempo real.
- Stage
- Uma posição no ciclo: backlog, spec, dev, PR, CI, QA+Data, arquiteto, main ou bloqueado.
- Fundação
- Os quatro documentos que definem um projeto antes da primeira spec.
- CLAUDE.md
- A memória viva de um projeto, lida antes de cada sessão e atualizada depois.
- Implementação de referência
- Uma ferramenta que implementa o método H1VE. O método é neutro em relação à ferramenta; uma implementação o torna operável.